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segunda-feira, 19 de março de 2012

Urrul. [sem revisão]

Urrul.
Este é um fenômeno que sempre tive dificuldade de explicar pra quem não é de Brasília. Este é um fenômeno que sempre pareceu tolo comentar pra quem é de Brasília. Porque para os nativos e habitantes daqui isso é como um daqueles fatos tão triviais que acabam sendo completamente ignorados, causando horror à sua mera menção.
Daí, o meu dilema. Dilema não, que dilema é coisa de boiola.
Daí minha encruzilhada. Mas enfim. Esse tal fenômeno nem sequer tem nome: . Funciona assim: na pista que passa ao lado do congresso nacional, ou seja, no eixão, do lado da cúpula voltada para cima, como quem volta de Brasília (digo isso porque em geral se está indo para São sebastião, pro lago sul, pro paranoá ou pro itapoã. Longa história), há um acentuado declive, e bota acentuado nisso. Ocorre que quando se desce essa pista com uma certa velocidade, tem-se uma sensação vertiginosa de frio na barriga. É uma sensação muito, muito estranha. Ocorre que, via de regra, quem está indo para as cidades que já citei antes tem que passar necessariamente por lá. Ok. Sendo assim, o ônibus da cidade de São Sebastião passa por lá, via de regra, sempre que está de regresso. Assim sendo, tornou-se uma espécie de tradição ou fato recorrente que sempre - eu disse "sempre" - que se passa por essa bendita descida, todos sentem coletivamente o bendito friozinho, e todos gritam em uníssono: "urrul!". Minutos antes da descida, todos no ônibus já se entreolham, expectantes. Os vendedores param de passar seus produtos, os crentes param de pregar, os leitores param de ler, as mães de amamentar e até os funkeiros interrompem suas tonitruantes caixinhas do som portáteis e chatíssimas. O motorista faz questão de descer numa velocidade boa o suficiente pra que todos possam sentir o friozinho e gritar: "Urrul". Nessa hora, todos interagem e sentem-se como um só, todos são muito simpáticos. Passado esse momento de pajelança e catarse, todos voltam a olhar para seus umbigos.
Às vezes, o motorista não desce rápido o suficiente, e dá pra ver na cara de cada um a frustração. Às vezes, todos ficam contidos na descidinha, mas intimamente gritam: "urrul".
Quando se desce de carro acontece o mesmo fenômeno.
Que eu saiba, isso não tem nome. Que eu saiba, não se fala muito disso, e nunca se falou. Mas este é o fenômeno.
Carlos era motorista de ônibus há oito anos. Durante oito anos foi um motorista exemplar. Asseado, simpático, pontual. Durante nove anos, foi um marido modelo e pai digno de honrarias. Nunca faltou com a palavra ou deixou de cumprir seu dever.
Carlos dirigia há oito anos o 180.1. Conhecia muitos dos passageiros, que também frequentavam o 180 há anos. Especialmente os das sete: era esse o horário de maior fluxo. Ocorre que Carlos tinha um segredo: entre os conhecidos passageiros havia uma chamada Léia. João a amava em segredo. Algo nela o atraia. Talvez o perigo, a possibilidade de evadir, nela, de sua forçosa rotina. Carlos, na verdade, nunca quis ser motorista de ônibus. Seu sonho era ser motorista de caminhão, e viajar pelas estradas brasileiras, sem porto de saída ou chegada, com uma amante em cada lugar. Mas apaixonou-se por Marli, com quem estudou no EJA, e logo ela ficou grávida. Foi com prazer que abdicou de seu sonho para cuidar de Marli e do rebento que já amava antes de nascer. Mas o fato de ter abdicado de seu sonho não significou que ele não ficou ali, pulsante, esperando o momento certo de dar-lhe um bote. Então, três anos depois, conheceu Léia. Léia era uma dessas mulheres mais velhas que gostam de se vestir de maneira extravagante, maquiar-se exageradamente e falar bem alto. Sempre estava com as pernas de fora, decote indiscreto e salto alto, que na maioria das vezes usava era na mão mesmo, especialmente quando estava no ônibus. "Meus pés estão me matando", dizia sempre. "Hoje quero dançar a noite inteira, tenho que descansar um pouco os pés", arrematava invariavelmente. Carlos comentava que ela não devia trabalhar de salto alto, se sabia que ia dançar, mas ela dizia que dona de salão de belexa não pode andar desleixada. Todos os fins de semana ela ia para o Áquarius bar dançar. O fim de semana todo: Sexta, Sábado e, quase sempre, domingo também. Era uma mulher bem pra frente. Todas essas características excitavam muito Carlos. Ela era o oposto de sua Marli: uma mulher reservada, responsável e que ia à igreja sempre aos domingos e só aos domingos. E aos poucos, o tesão foi se transformando numa paixão violenta.
A primeira vez que a viu foi de manhã cedo, na viajem das 6:20. Ela estava exatamente com a mesma roupa com que estava na última vez: um vestido branco cintilante, com sapatos de plataforma da mesma cor (na mão) e maquiagem prateada. Visivelmente bêbada e esculhambada. Tinha dormido na rua e agora tinha que ir ao trabalho sem poder ir em casa antes. Tinha se arrumado mal e mal na casa de uma amiga e agora partia para o salão de beleza, que ficava no Conic. A primeira vez que a viu, carlos sentiu repulsa, mas ao mesmo tempo não conseguia parar de olhar para seus peitos e sua bunda, que praticamente gritavam "me olhe". Sem que ele dissesse nada, começaram um extenso diálogo, do qual os passageiros que vieram depois logo ficaram a par, involuntariamente como o próprio carlos. Léia não precisava de diálogo para ter uma conversa. Na rodoviária, antes de retomar o intinerário, carlos foi tomar um café e ofereceu-lhe um café e um cigarro, que ela aceitou prontamente, sem nunca parar de falar. Isso acabou se repetindo por algumas vezes. Léia estava numa fase bem pior do que o de costume, e quase toda segunda essa história se repetia. Toda semana ele dizia: "De novo, mulher? Seu marido vai lhe por pra fora de casa, viu?", mesmo sabendo a resposta, que era "Se eu tivesse um marido em casa eu não tava na caça todo domingo. Pensando bem, é melhor assim mesmo".
Logo tornaram-se mais amigos. Logo Carlos começou a observá-la com cada vez mais atenção e mais tesão e a desejá-la cada dia mais um pouquinho. Viam-se diáriamente Às sete, quando léia fechava o salão e voltava pra casa, e fazia questão de pegar o ônibus que carlos dirigia. Léia dizia sempre: "Arrocham na ladeira, meu amor, que eu quero sentir um friozinho na barriga". Isso se tornou uma espécie de conectivo entre os dois, a sua "coisa especial". Sempre que Léia estava no ônibus (sempre se sentava na frente), carlos fazia questão de imprssioná-la, de se amostrar pra ela, e caprichava na descida. Léia sempre gritava "Urrul" com toda a histeria que deus deu no mundo. Carlos adorava vela gargalhando. Nesas  horas, ficava pensando o quão rápido se poderia descer aquela ladeira, e o quão forte poderia causar um frio na barriga de léia. ele queria causar-lhe o frio mais intenso e arrancar de sua garganta a gargalhada mais sonora, a mais visceral. Queria também trascender algum limete alguma vez na vida, os limites que ele nunca venceu no caminhão que nunca teva. Os diálogos iam se aprofundando viagem após viagem, Quando percebeu, já estava frequentando o aquárius quase todo fim de semana com os colegas do terminal.
Um dia acabou se atracando com a tal, mas depois não quis mais saber. Ficou arrependido e com a consciência pesada, e tornou-se cada vez mais atencioso com a mulher. Mas vê-la qu ase todo dia quando voltava do salão não ajudava muito. Léia, por seu lado, viu em carlos uma ancora para seu navio à deriva, resolveu devotar-se a ele, se devotasse a ele em outros homens. Desenvolveram  uma longa correspondencia, algumas ligações e muitos sms. Mas Carlos nunca dava outra chance à Léia. Os anos foram se passando e carlos ficava cada vez mais louco e cada vez mais reprimido, a ponto de ter pedido tranferência de linha, que nunca aconteceu.
Depois de três anos nessa, carlos acabou sucumbindo outra vez. E outra vez, e outra vez, até que tornou-se um hábito. Marli já andava desconfiada, logicamente. Um dia, armou o flagra, e pegou os dois aos beijos na praça central do Conic. E assim tudo degringolou, como podem imaginar. Foi um escândalo que os traseuntes e frequentadores dos bares locais muito apreciaram, com roupas rasgadas e cabelos arrancados. Carlos tentou ir atrás de Marli mas já era tarde. Léia falou que já era ora dele tomar uma decisão. Carlos escolheu sua marli, e Leia disse que ele pensasse bem que não poderia mais voltar atrás. "Você queria isso desde o começo, não é?". dizia ele. Ela só ficava repetindo: "Escolhe, seu cachorro, seu viado"; Ele se manteve firme, e léia logo pegou seu rumo também. Amargurado, carlos sentou em umbar do conic e "tome pra dentro". às seis, foi para a rodoviária. Entrou no ônibus. Ligou a ignição, e já ia sair quando viu marli correndo, com um negrão a tira colo. "Pera, seu fela da puta, que eu quero ir pra casa, vai me deixar aqui? Logo hoje que vou pra casa com o Ben, pra tomar todas?" isso a toda altura, para a rodo toda ouvir. Carlos tentou fingir que não viu, mas ela correu e ficou batendo na lateral do onibus e ele não teve jeito. Ela entrou com o negrão. No caminho, ficou o tempo todo provocando, se atirando pro negrão e fazendo ciúmes em carlo. Carlos calado, na dele, e ela provocando, carlos já bem alterado. Comeraçarm a bater boca. Ainda no eixão, ele parou no acostamente, eles brigaram pra valer, e o pessoal do onibus começou a ficar revolstado. a pista estava fechada pois estava rolando um portexto contra a corrupção. Havia um monte de manisfestantes com vassouras na praça dos tres poderes,  que fica bem de frente ao eixão. delimitandoa curva para a esquerda. Era um lugar estratégico para que todos os apssageiros de onibus vissem a mobilizxação. E eles lá batendo boca, no meiuo da multidaõ, entre os protestos dos passageiros e os protestos dos manifestantes. " vc não prefere aquela sua mulherzinha lá, então eu também vou atrás de quem me quer, de quem me merece, não é ben. benhe, falar pra ele. Além do mais, o ben nao ébrocha que nem vc, seu fraco. NUnca senti nada contigo, nem vou sentir". com essa carlão não ageunteou e desistiu. subiu no onibus num arroubo e esperou os passageiros subirem de volta. Marli entrou também, e ele disse " se ela não ficar calada eu deixo o onibus ai e vou a pé"; mas marli continuou provocando, e dizia: "e ve se arrocha na ladeira, porque só assim vc me causa um frio na barriga";
aí, meus amigos, bastou. Carlão falou: ah é? pois hoje todo mundo aqui vai sentir o frio na barriga mais frio que uma barriga já sentiu. faz é muito tempo que eu queria fazer isso, porra. Histeiria, gritos, protestos. Carlos pisou fundo na tábua e acelerou por esse eixão que era só dele e gritou. la´vai, podem gritar seus porras. Na ladeira, já estava super rápido e desceu com tudom procando o maior calafrio da história do planalto. obviamente não consegui fazer a curva direito e capotou com o ônibus, atropalando os manifestantes, batendo na cara de JK e matando os oitenta e três passageiros que superlotavam o onibus. Todos morreram. Inclusive benjamin, um transexual que trabalhava num salão de beleza no conic.
Na hora da morte, durante a descida, diante da vertiginosa descida, a maior de todas, involuntariamente todos os passageiros gritaram em uníssono o coro do friozinho na barriga. Os manifestantes sobreviventes dizem que antes da explosão, tudo o que se ouviu foi um bizarro e sonoro: "Urrul".

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